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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Entendendo a Privataria Tucana

Como o tesoureiro de José Serra montava consórcios de empresas e emprestava dinheiro do Banco do Brasil para comprar as estatais privatizadas por FHC e Serra.
Como amigos e parentes de Serra lavaram dinheiro no exterior para usá-lo no Brasil.
Como foi montada uma central de espionagem no Ministério da Saúde e no Governo de São Paulo para destruir os adversários de José Serra.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Por dentro da Privataria Tucana

Serra usou arapongas pagos com dinheiro público para espionar adversários. Investigando as privatizações de FHC, uma grande lavanderia de dinheiro surge com nomes do círculo mais próximo a Serra.

O objetivo deste artigo e de demais que pretendo publicar é revelar para quem ainda não leu ou não conseguiu comprar o livro, as graves acusações comprovadas pela obra investigativa, “A Privataria Tucana”, que devem servir de base para uma CPI, já com assinaturas suficientes de mais de Deputados, coletadas pelo Deputado Federal Protógenes Queiróz em 21 de dezembro último. Protógenes foi o delegado da Polícia Federal, responsável pela operação Satiagraha que prendeu o banqueiro do Opportunity, Daniel Dantas. O mesmo banqueiro foi solto graças á intervenção do então Presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, amigo de Serra. Dantas será personagem de destaque no livro.

A Guerra entre Serra e Aécio pela candidatura à Presidência
Amaury Ribeiro Jr. é um jornalista investigativo com muitos prêmios em sua carreira e que chegou a sobreviver a um atentado quando denunciou traficantes envolvidos com assassinatos de jovens nos arredores de Brasília. Em dezembro de 2007, enquanto se recuperava do tiro no abdômen, da cirurgia e da depressão pós-traumática, foi chamado pelo jornal o Estado de Minas, do mesmo conglomerado do Correio Braziliense em que trabalhava. Seu trabalho seria descobrir quais eram os arapongas que vasculhavam a vida do governador mineiro pelo PSDB, Aécio Neves, em seus roteiros amorosos na cidade do Rio de Janeiro. Aécio seria vigiado e seguido por homens de Serra que queria eliminar o concorrente à candidatura à Presidência da República no PSDB. Com um dossiê em mãos contra seu rival tucano, Serra teria chantageado Aécio para abandonar a disputa. Tais informações partiram, na época, da própria assessoria do governo mineiro ao jornal, que conforme Amaury, é Aecista de corpo e alma.

Os arapongas de Serra (pagos com dinheiro público) e o jogo sujo contra adversários dentro e fora do PSDB
Com a pauta em mãos, Amaury buscou informações com seu amigo Idalberto Matias de Araújo, o agente Dadá, do Serviço de Inteligência da Aeronáutica (Cisa), que já o havia ajudado no caso dos traficantes em Brasília. Dadá apurou que o trabalho de campo da campanha serrista para complicar Aécio era chefiado por um homem da Agencia Brasileira de Inteligência (Abin) Luiz Fernando Barcellos. Conta Amaury: “Conhecido como ´agente Jardim´, Barcellos teria sido levado para o grupo de inteligência de Serra pelo deputado Marcelo Itagiba (PSDB/RJ)2, também delegado da Polícia Federal e casado com uma prima do tucano Andrea Matarazzo1, amigo de Serra há muitos carnavais.”
A informação de Dadá veio do delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo das Graças Sousa, que na campanha eleitoral de 2010 foi personagem trazido pelo imprensa serrista para desqualificar as informações bombásticas que o livro de Amaury traria a público. O delegado
trabalhara com Barcellos (Agente Jardim) no núcleo de inteligência que Serra montara com dinheiro público quando ministro da Saúde, dentro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na época de Serra Ministro, Itagiba2 comandava o núcleo, a princípio para investigar os laboratórios acusados de fraudar os medicamentos genéricos. Porém, era pretexto para bisbilhotar funcionários do Ministério, como publicou a imprensa naqueles anos, o que levou à demissão do agente do extinto Serviço Nacional de Informação (SNI) por Serra conforme Diário Oficial da União da época. O próprio Ministro de FHC, o tucano Paulo Renato, foi alvo de Serra.

As privatizações e os esquemas de lavagem de dinheiro
Amaury entregou ao jornal Estado de Minas um relatório sobre o funcionamento da inteligência
da campanha de Serra, porém, decidiu aprofundar as investigações. Foi quando retomou ao tema pelo qual já se debruçara antes, inclusive quando escrevia para a IstoÉ e para a sucursal de O Globo em São Paulo: “a Era das Privatizações, sob a égide do presidente Fernando Henrique Cardoso, particularmente os negócios que se deram na área das telecomunicações.” Amaury fez “uma varredura em cartórios de títulos e documentos, além de juntas comerciais de São Paulo e do Rio”. Conseguiu mapear como o ex-diretor da área internacional do Banco do
Brasil, Ricardo Sergio de Oliveira, e outros “alunos” com presença expressiva de tucanos paulistas, tratavam as empresas e o dinheiro no Brasil e nos paraísos fiscais do Caribe.

Além do tesoureiro de campanha de Serra, surge seu genro no esquema
Ricardo Sergio, ex-tesoureiro das campanhas eleitorais de Serra e de FHC, operava o dinheiro de forma que ele saía do país como se tratasse de investimentos em empresas estrangeiras e voltava para o Brasil, após passar por paraísos fiscais, também como investimentos externos em empresas nacionais, driblando os órgãos fiscalizadores, tratando-se de uma lavagem, ou melhor, internação de dinheiro. Apesar de parecer se tratar de origens e destinos diferentes, nas duas pontas da operação estava Ricardo Sérgio. Era dessa forma também que atuava a quadrilha da “advogada Jorgina de Freitas, que ganhou notoriedade por fraudar a Previdência Social em mais de R$ 1 bilhão”. Também por documentos da Junta Comercial de São Paulo, na Justiça e nos cartórios de títulos, e documentos da cidade, Amaury encontrou em 2008, novo personagem: Alexandre Bourgeois, genro de Serra, usando a metodologia “bolada pelo ex-tesoureiro do sogro”. Logo após a privatização das empresas de telecomunicações, Bourgeois abriu no mesmo paraíso fiscal, duas empresas offshores, que operavam no mesmo escritório utilizado por Ricardo Sergio nas Ilhas Virgens Britânicas.

Serra e Aécio apresentam as armas: os jornais paulistas e mineiros
O autor de “A privataria tucana” chamou de tolice sua iniciativa de telefonar para a assessoria de imprensa do governador paulista, buscando seu pronunciamento sobre o assunto. Serra tentou barrar a matéria quando ainda estava sendo apurada. Ao descobrir que era conduzida pelo Estado de Minas, “Serra quis falar com a direção do jornal e com a irmã do governador Andrea Neves, sem sucesso”, procurando então, diretamente a Aécio, para aparar arestas. Apesar de ter aparentemente  funcionado, era necessário aplacar “o comando do jornal mineiro, inconformado com a arapongagem de Itagiba e com o artigo ´Pó pará, governador´, plantado pela entourage de Serra em O Estado de S. Paulo, para desgastar o governador mineiro”. Em fevereiro de 2009, o falecido colunista Mauro Chaves, ironizou a intenção de Aécio definir por prévias no PSDB quem seria o candidato. O jornal Serrista dispensou o protocolo e disparou um torpedo para derrubar a pré-candidatura de Aécio.
Divergindo da linha conservadora do jornal, o artigo insinuava uma suposta ligação de Aécio ao “Pó” (cocaína) para expô-lo, “de modo vulgar e dissimulado, o comportamento do rival de Serra e enviar -lhe um recado muito claro”.

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Serra ataca por meio do Estadão e…

O jornal Estado de Minas não engoliu o artigo do Estadão “Pó pará, governador”, ainda mais por acusar as relações entre os jornais mineiros e Aécio, comparando com São Paulo, onde Serra e e outros tucanos seriam, segundo o responsável pelo artigo, “cobrados” pelos jornalões de São Paulo. Por vingança e indignados, os mineiros repeliram “a arrogância de lideranças politicas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador
Aecio Neves” já no início do editorial ”Minas a reboque, não!”, do Estado de Minas, em março de 2010, rejeitando um eventual papel subalterno de Aécio para enfrentar Dilma Rousseff.

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Aécio retruca pelo Estado de Minas: “Minas a reboque, não!”

Cenas dos próximos capítulos: a filha, o primo e ex-sócios de Serra
Muitos outros personagens e maneiras de ganhar dinheiro surgem nos capítulos do livro que revela bastidores do episódio que, segundo o autor,foi um “assalto ao patrimônio público do país por meio das privatizações”. Mais sobre “a filha Veronica Serra, seu genro Alexandre Bourgeois, seu primo politico Gregório Marin Preciado, seus muitos sócios, seus amigos e seus
colaboradores. E outros tucanos de altos poleiros.”

1 “De 1999 a 2001, foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República durante o governo de Fernando Henrique Cardoso e embaixador do Brasil em Roma, entre 2001 e 2002. Em 2005, entrou na administração municipal de São Paulo como subprefeito da Sé na gestão de José Serra, Assumiu também, em 2006, a Secretaria Municipal de Serviços, como subprefeito da Sé e secretário (de Coordenação das Subprefeituras) na gestão de Gilberto Kassab. A partir de 2008, manteve-se apenas como secretário até o início de setembro de 2009, quando teve seu pedido de demissão aceito por Kassab. Atualmente é Secretário de Cultura do Estado de São Paulo, do Governo Geraldo Alckmin.” (Wikipédia) – foi acusado pelos movimentos sociais, incluindo pelo militante Padre Júlio Lancelotti de promover políticas de higienização social.
2 Marcelo Itagiba foi acusado na CPI das Milícias “de ter feito campanha na favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, durante sua gestão como Secretário de Segurança Pública, com apoio do grupo paramilitar que controla a região. O relatório final da CPI apontou que a ação das milícias cresceu enormemente durante sua gestão como Secretário de Segurança Pública.” (Wikipédia)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Saul Leblon: Arrocho salarial é motivo, não solução da crise

2011-2012: Foi a pobreza que gerou a crise, não o inverso
por Saul Leblon, na Carta Maior
Estender a jornada de trabalho, sem contrapartida salarial, é a contribuição que Portugal e Espanha oferecem ao mundo no apagar das luzes de 2011. Uma alternativa neoliberal ao colapso do neoliberalismo. Antes de dar a isso o epíteto de uma excrescência conservadora talvez fosse mais justo creditar a Passos Coelho e a Mariano Rajoy o benefício da coerência. Nada mais fazem os dirigentes ibéricos do que radicalizar os fatores que deram origem ao colapso mundial, assentado, entre outros pilares, em três décadas de arrocho sobre o rendimento do trabalho nas principais economias ricas, associado a mimos tributários que promoveram o fastígio dos endinheirados.
Para clarear as coisas: não foi a crise que gerou o arrocho e a pobreza em desfile no planeta, mas sim o arrocho e a desigualdade neoliberal que conduziram ao desfecho explosivo, exacerbado agora por direitistas aplicados, que dobram a aposta no veneno. A ordem dos fatores altera a agenda futuro: a crise não é apenas financeira; controlar as finanças desreguladas é um pedaço do caminho para controlar a redistribuição do excedente econômico, ferozmente concentrado nas últimas décadas na base do morde e assopra — arrocho de um lado, crédito e endividamento suicida do outro, falindo famílias e governos.
Vista desse ângulo a equação contesta, por exemplo, o jogral do conservadorismo nativo que qualifica como ‘temerário’ o reajuste de 14% (9% reais) para o salário mínimo em 2012, como a sugerir, à moda Rajoy e Passos Coelho, que a ‘gastança’ (fiscal/salarial) estaria na origem da crise, sendo a hora da verdade sinônimo de hora do arrocho. Ao injetar R$ 47 bi adicionais à demanda interna, o governo brasileiro na verdade reforça as imunidades do país em relação às origens da crise mundial.Em boa parte assentada no definhamento do poder de compra dos assalariados que se encontra hoje comprimido entre os menores da história em muitos países.
O aumento do salário mínimo, ao contrário, coloca o poder de compra de 48 milhões de brasileiros no nível mais alto dos últimos 30 anos. E isso gera encadeamentos produtivos e fiscais virtuosos, de que se ressentem os países ricos nesse momento. A ‘gastança’ de R$ 19,8 bi com os 20 milhões de aposentados beneficiados pelo reajuste do mínimo, por exemplo, retornará aos cofres públicos na forma de R$ 22,9 bilhões em impostos. Cálculos do Dieese.
O que fizeram os governantes das economias desenvolvidas desde os anos 90 — com os aplausos obsequiosos do dispositivo midiático demotucano — foi lubrificar uma espiral inversa. Desde 2000, a classe média americana dotada de diploma universitário, não tem reajuste salarial. Mais de 46 milhões de norte-americanos vivem hoje na pobreza, constituindo-se na taxa mais elevada dos últimos 17 anos: 15,1% .
Em termos absolutos, o contingente atual de pobres é o maior desde que Census Bureau começou a elaborar as estatísticas americanas, há 52 anos. Síntese do desmonte social acionado pelo neoliberalismo, o número de norte-americanos sem seguro-saúde é da ordem de 50 milhões de pessoas e tudo isso antecede a crise, que agravou o esferalamento do way of life elevando a 46 milhões o total de desempregados, sobre uma base de dissolução pré-existente.
A receita não é privilégio norte-americano. Um quarto de todos os lares da Ingaterra e País de Gales, cerca de 20 milhões de pessoas, vivem em estado de pobreza atualmente, um sólido legado de sucessivos governos neoliberais, desde Tatcher, passando por Blair até chegar no atual ‘engomadinho’ atual, como diz Luiz Gonzaga Belluzzo. Cameron cuida de jogar a pá de cal naquela que já foi a rede de serviços sociais mais equipada da Europa. Pesquisas indicam que em pleno inverno, um número crescente de famílias inglesas vive o pior quadro de aperto financeiro desde a II Grande Guerra. E um relatório recente da OCDE — não propriamente uma trincheira progressista — sugestivamente intitulado “Divididos estamos: porque aumenta a desigualdade”, indica que “a renda média de 10% das pessoas mais ricas representa nove vezes a renda dos 10% mais pobres” nos países (ricos, em sua maioria) que integram esta organização.
A distância aumenta em dez para um na Grã-Bretanha, Itália e Coreia do Sul; chega a quatorze para um em Israel, Estados Unidos e Turquia, diz o informe. Os dados sobre os Estados Unidos mostram que “a renda por família, após o pagamento de impostos, mais do que dobrou entre 1979 e 2007, entre o 1% mais rico. Na fatia dos 20% mais pobres, caiu de 7% para 5% no mesmo período.
“Quando se fala dos mais ricos entre os ricos estamos dizendo que há espaço para aumentar os impostos”, afirmou Angel Gurria, o secretário geral da organização, numa menção indireta às escandalosas isenções tributárias acumuladas pelos endinheirados desde o governo Reagan, nos anos 80.
Foi sobre essa base de renda e trabalho esfacelados simultaneamente pela transferências de empregos e empresas às ‘oficinas asiáticas’, que se instalou o colapso neoliberal. A asfixia desse arranjo capitalista só não explodiu antes, graças à válvula de escape do endividamento maciço de governos e famílias, que atingiu patamares de virtuosismo insustentável na bolha imobiliária norte-americana, espoleta da crise mundial de 2008.
Quando as subprimes gritaram — ‘o rei está nu’ todo o criativo edifício de uma supremacia financeira baseada no crédito sem poupança (porque sem empregos, sem renda e sem receita fiscal compatível) veio abaixo.
A tentativa atual de ‘limpar o rescaldo’ do desabamento removendo apenas seus gargalos financeiros — ou seja, salvando os bancos e arrochando ainda mais os assalariados e os pobres — é mais uma forma de perpetuar a essência da crise do que de enfrentar as suas causas seminais. O jogo é mais pesado. Controlar as finanças desreguladas é um pedaço do caminho para controlar a redistribuição do excedente econômico, ferozmente concentrado nas últimas décadas, na base do morde e assopra – -arrocho de um lado, crédito do outro. Preservar o modelo com arrocho de crédito, como se tenta, requer uma carnificina econômica e social. A julgar pelas iniciativas dos governantes portugueses e espanhóis, a direita está disposta a movimentar o açougue em 2012. A ver.
Saul Leblon: Arrocho salarial é motivo, não solução da crise:
31/12/2011
do Viomundo - O que você não vê na mídia