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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Eu tenho medo é dos mascarados

Recebi um e-mail alertando para refletir quanto à apologia que se está fazendo ao homossexualismo. Conta com o vídeo de um gênio mascarado e que se diz polêmico porque xinga deputados ao denunciar o risco do “kit gay” para nossos filhos que podem “mudar de lado”. O brilhante anônimo tem a mesma profundidade polêmica de Datena sem a coragem de mostrar a cara, talvez porque não ganhe 1,3 milhões por mês. Não vou divulgar o nickname e nem o vídeo do infeliz porque não vou dar ibope para campanhas homofóbicas “travestidas” de apelos pela normalidade e pela moralidade.
Lembrei de outros mascarados da história. Em especial daqueles que saíam queimando negros nos EUA e que quando já estavam sumindo, reapareceram nos anos de 1950 quando a lei contra segregação foi aprovada por lá.
Achei impressionante alguém falar de moralidade nos dias de hoje. Moralidade heterossexual, Bolsonaro? Deve ser a moralidade dos programas de domingo, com bundas dançantes. A sexualidade hetero e machista exacerbada é moral e normal. Aí pode.
Outra palavrinha bacana: “normal”.  “Pô meurmão, vou ensiná meus filho que ser gay é normal, cumpade?” Lembrou-me o Traficante Viado, personagem de Paulinho Serra dos Dez Necessários(quem quiser ver, vá ao youtube). O mascarado do vídeo homofóbico  contra o kit gay, tem a sexualidade tão bem definida que tem medo de ser contaminado pelo vírus do homossexualismo. Ele acha que seus filhos vão virar gays se assistirem a um vídeo educativo e descobrirem, pasmem, existem homossexuais. O disfarçado demagogo defende a educação explorando a fantasia dos desavisados que ficam a imaginar seus pequerruchos sendo obrigados a brincar com a Barbie nas escolas, quando se fala em educar para a tolerância. Ele se acha normal porque não é gay.
Normal é ser homem, branco e heterossexual. Eu tenho medo desses mascarados que aparecem nos momentos que minorias “anormais” defendem direitos. Pensei no penoso percurso traçado pelas mulheres que podem votar no Brasil não faz nem oitenta anos. Os homens não saíram mascarados às ruas e nem precisaram da internet para garantir o anonimato que o aconchego do lar lhes permitiu para ocultar seu machismo na privacidade doméstica. Afinal, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Mulheres não precisaram ser espancadas na Av. Paulista para homens dizerem quem é que manda. Isso acontecia e acontece nas casas. Quantas mulheres de olhos roxos e braços quebrados não ouviram que o normal era a mulher servir ao marido, inclusive sexualmente. Até pouco mais de três décadas, publicitários sem máscaras divulgavam por aí o que era normal. O normal muda, e sempre teremos mascarados para incitar o ódio e impor sua normalidade. Desses devemos ter medo.

Para ilustrar o conceito de normalidade pregado pelo vigilante com máscara, algumas propagandas que pregavam o que era o “normal” para as mulheres.

Que gata esse cara ganhou com sua calça bacana!

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Mulheres e volantes...

Mostre a elas. Esse mundo é dos homens

.

Para os homens que acham que mulheres e carros ou se conserta ou é melhor trocar

Essa marca de eletrodomésticos (Chef) diz que faz tudo, mas cozinhar
- é para isso que as mulheres foram feitas

O marido descobriu que ela estava usando outra marca de café.

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Ela não estava bem limpinha para ele

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domingo, 26 de junho de 2011

Bispo de Guarulhos vomita machismo

Por Altamiro Borges
Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos (SP) que ficou famoso nas eleições do ano passado por financiar, ilegalmente, panfletos apócrifos contra a candidata Dilma Rousseff, não tem cura mesmo. Ele precisa urgentemente ser exorcizado! Em entrevista ao jornal Valor, o “apóstolo” do ódio e do preconceito voltou a vomitar contra o direito da mulher ao aborto mesmo em caso de estupro:
“Vamos admitir até que a mulher tenha sido violentada, que foi vítima… É muito difícil uma violência sem o consentimento da mulher, é difícil”, comenta. O bispo ajeita os cabelos e o crucifixo. “Já vi muitos casos que não posso citar aqui. Tenho 52 anos de padre… Há os casos em que não é bem violência… [A mulher diz] “Não queria, não queria, mas aconteceu…”, diz. “Então sabe o que eu fazia?” Nesse momento, o bispo pega a tampa da caneta da repórter e mostra como conversava com mulheres. “Eu falava: bota aqui”, pedindo, em seguida, para a repórter encaixar o cilindro da caneta no orifício da tampa. O bispo começa a mexer a mão, evitando o encaixe. “Entendeu, né? Tem casos assim, do “ah, não queria, não queria, mas acabei deixando”.
Processo urgente
Repugnante! No ano passado, milhões de panfletos acusando Dilma Rousseff de ser “abortista” e de “matar criancinhas” foram apreendidos numa gráfica no Cambuci, no centro da capital paulista. O dono da empresa confessou que o pedido havia sido feito por agentes do bispo de Guarulhos. Apesar do crime eleitoral, nada foi feito contra Dom Bergonzini. Em sermões e entrevistas, ele continuou sua pregação odiosa e mentirosa em favor do candidato tucano José Serra.
Agora, ele volta ao ataque, desprezando a própria legislação brasileira que garante o direito ao aborto em caso de estupro. As suas declarações até que mereceriam um processo, desta vez das entidades feministas que defendem os direitos das mulheres. Não dá para ficar passivo diante da campanha de ódio deste bispo. Como já foi dito, ele precisa urgentemente ser exorcizado!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

No Senado, Marta quer discutir aborto e união civil de homossexuais

‘Enquanto outros países avançam, nós retrocedemos’, disse a senadora, que tomou posse nesta terça

Eduardo Bresciani, do estadão.com.br

BRASÍLIA – A senadora Marta Suplicy (PT-SP) tomou posse de seu mandato nesta terça-feira, 1º, afirmando que vai trabalhar pela aprovação de um projeto que permita a união civil de pessoas do mesmo sexo. Marta também defendeu a legalização do aborto e afirmou que o Parlamento precisa “avançar” em questões comportamentais. Marta foi indicada pelo PT para ocupar a primeira vice-presidência da Casa e deve ser eleita ainda nesta tarde.

Ela afirmou que vai ver os trâmites para a possibilidade de desarquivar um projeto que trata da união civil, de sua autoria, apresentado ainda quando era deputada. Marta disse que o tema pode ser discutido em outro projeto.

“Enquanto outros países avançam, nós retrocedemos, enquanto a Argentina reconhece a união civil e Buenos Aires é uma cidade ‘gay friendly’, nós temos espancamentos na avenida Paulista”, disse a senadora.

Marta diz ver avanços sobre o tema no Judiciário, mas reclamou da atitude do Legislativo sobre o tema. “Tivemos um salto no Judiciário e o Parlamento está se apequenando, e nós precisamos avançar”.

A senadora defendeu ainda a legalização do aborto, tema que colocou o PT na defensiva durante o processo eleitoral. “Não podemos daqui a quatro anos ter ainda este assunto sem discussão porque ninguém tem coragem de debater. A campanha eleitoral foi desastrosa em questões comportamentais, mas isso se deve ao acirramento da eleição e os ânimos agora estarão diminuídos e poderemos debater”. Ela reconheceu, porém, que uma decisão sobre o aborto levará tempo e defendeu que toda a sociedade participe do debate.

No Senado, Marta quer discutir aborto e união civil de homossexuais

 

Quando Beatie estava grávido, havia moralista de plantão nos EUA propondo até que ele abortasse. Nesse caso pode? Nascido mulher, passou por uma operação de mudança de sexo e começou a tomar suplementos de hormônios masculinos, mas decidiu fazer inseminação artificial porque sua companheira não podia ter filhos. Aliás, já disseram que se homem engravidasse, aborto seria legal e sacramentado.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Erundina para Dilma: “Não se intimide”

Portal Luis Nassif

De Erundina para Dilma: “Não se intimide” (entrevista)

23/01/2011

De Erundina para Dilma: “Não se intimide”

Primeira mulher a comandar a maior cidade do país, deputada adverte presidenta que sociedade é mais tolerante com os erros dos homens e aconselha petista a transformar eventual discriminação em luta

Luiz Alves/Câmara

Primeira mulher a governar São Paulo, Luiza Erundina dá, nesta entrevista, conselhos à primeira presidenta do Brasil

Edson Sardinha

Mulher, solteira, migrante nordestina e filiada a um partido temido por determinados setores da sociedade à época. Contra todas essas adversidades, Luiza Erundina fez história ao se tornar a primeira mulher eleita para comandar a maior cidade do país no final dos anos 80, então pelo PT. Duas décadas depois, a ex-prefeita de São Paulo é uma das principais coordenadoras da bancada feminina no Congresso e uma entusiasta confessa do governo da primeira presidenta do Brasil. Do alto de sua experiência política, Luiza Erundina pede a Dilma Rousseff que não se esqueça que a sociedade, apesar dos avanços dos últimos anos, ainda é menos tolerante com os erros de uma mulher na vida pública do que seria com os desacertos de um homem.

“A sociedade é mais complacente com os homens. É mais tolerante com o homem do que com a mulher. Por isso a gente acerta, na média, mais que os homens, porque somos submetidas a mais exigências. Nós temos de dar certo. É praxe o homem nem sempre dar conta da responsabilidade, trair o voto popular. Como não temos precedentes, a responsabilidade que cai sobre nossos ombros é maior.”

Reeleita para seu quarto mandato de deputada federal pelo PSB, a ex-petista, baseada na sua experiência na administração de São Paulo, Erundina dá conselhos a Dilma sobre como enfrentar o eventual preconceito. “Primeiro, não se sentir vítima. Sei que ela não se sente. Nunca me senti vítima, transformei a discriminação em bandeira de luta. A gente só vai eliminar essa desigualdade de gênero quando houver mudança de cultura. Segundo, não se intimidar. Tem de ir para cima. A bandeira da luta é permanente. Acredito que ela administrará isso muito bem. Para uma mulher com o nível de politização e vivência dela, isso não será problema”, afirma a deputada.

Nesta entrevista ao Congresso em Foco, Luiza Erundina diz que a participação política das mulheres evoluiu consideravelmente desde sua eleição para a prefeitura de São Paulo, em 1988, mas que não é possível dar a luta por vencida. “Temos de ampliar nossa participação política no Parlamento. Na Argentina, por exemplo, as mulheres já ocupam 40% das cadeiras do Congresso. Mas o nosso quadro partidário é pior que o de lá e o de outros países da América Latina. Não há democracia interna nos partidos.”

Carta com fezes

Dezoito anos depois de ter deixado a prefeitura de São Paulo, Erundina ainda se lembra das dificuldades que enfrentou no comando da maior cidade da América do Sul. “No meu caso ainda era pior, porque eu era mulher, nordestina e do PT. Eram várias condições pessoais minhas que se somavam e reforçavam o preconceito. Sofri muito boicote e agressão. Recebi inúmeras mensagens ofensivas. Chegaram a me mandar uma carta com fezes dentro. Não foi fácil. Mas isso foi há 20 anos. Hoje, embora haja muita resistência em relação à participação das mulheres na política, o cenário é diferente”, avalia. “Dilma não se elegeu só por ser a candidata do Lula. Mas também por ser mulher”, acrescenta.

Na visão de Erundina, a presidenta terá como principal desafio inicial em seu governo envolver um novo ator na interlocução com o Congresso: a sociedade civil organizada. Com o apoio de movimentos populares, por exemplo, Dilma ficará menos dependente do Legislativo e dos partidos políticos, entende a deputada. “Esse quadro partidário está esgotado e muitos dos problemas nessa relação se devem ao esgotamento dos partidos como propostas políticas”, considera. Para ela, os partidos e o Congresso perderam autonomia, identidade e projeto próprio.

Veja a íntegra da entrevista de Luiza Erundina:

Congresso em Foco - A senhora foi a primeira mulher a comandar a maior capital do país. A senhora se sentiu discriminada enquanto foi prefeita?
Luiza Erundina –
Com certeza, enfrentei várias situações. No meu caso ainda era pior, porque eu era mulher, nordestina e do PT. Eram várias condições pessoais minhas que se somavam e reforçavam o preconceito. Sofri muito boicote e agressão. Recebi inúmeras mensagens ofensivas. Chegaram a me mandar um carta com vezes dentro. Não foi fácil. Mas isso foi há 20 anos. Hoje, embora haja muita resistência em relação à participação das mulheres na política, o cenário é diferente. A luta das mulheres ganhou em visibilidade e avançou. Dilma não se elegeu só por ser a candidata do Lula. Mas também por ser mulher.

Mas a participação feminina no Congresso continua uma das mais baixas da América Latina...
Não é porque Dilma foi eleita presidenta que a questão da mulher está resolvida. Só elegemos uma presidenta quase 80 anos depois de termos elegido a primeira prefeita, no Rio Grande do Norte [Alzira Soriano, prefeita de Lajes em 1929]. A luta não está vencida e consagrada. Temos de ampliar nossa participação política no Parlamento. Na Argentina, por exemplo, as mulheres já ocupam 40% das cadeiras do Congresso. Mas o nosso quadro partidário é pior que o de lá e o de outros países da América Latina. Não há democracia interna nos partidos.

Que tipo de preconceito Dilma pode enfrentar por ser uma mulher na Presidência?
É a primeira mulher a chegar à Presidência. Apesar de ter filha e neto, ela não tem uma família dentro do padrão. Isso pesa. Mas é assim que se vai mudando a cultura, porque a gente foge do padrão tradicional de família, de faixa etária, de gênero e coisas que reforçam o preconceito. A sociedade é mais complacente com os homens. É mais tolerante com o homem do que com a mulher. Por isso a gente acerta, na média, mais que os homens, porque somos submetidas a mais exigências. Nós temos de dar certo. É praxe o homem nem sempre dar conta da responsabilidade, de trair o voto popular. Como não temos precedentes, a responsabilidade que cai sobre nossos ombros é maior. Foi a partir da minha vitória em São Paulo que as mulheres passaram a acreditar mais na possibilidade de ampliar o espaço político.

Que diferenças a senhora acredita ter levado ao seu governo?
Foi, sobretudo, na forma de governar, de se relacionar com o povo, no sentido de desmistificar a governabilidade, de dar rigor absoluto na ética e soluções criativas para os problemas.

Que conselhos a senhora daria a Dilma para enfrentar eventuais preconceito?
Primeiro, não se sentir vítima. Sei que ela não se sente. Nunca me senti vítima, transformei a discriminação em bandeira de luta. A gente só vai eliminar essa desigualdade de gênero quando houver mudança de cultura. Segundo, não se intimidar. Tem de ir para cima. A bandeira da luta é permanente. Acredito que ela administrará isso muito bem. Para uma mulher com o nível de politização e vivência dela, isso não será problema.

A bancada feminina acabou não crescendo no Congresso com a mudança de legislatura. Mas nunca houve tantas ministras como no governo Dilma. A participação das mulheres no ministério corresponde às expectativas da bancada feminina?
Não só pelo número, mas pelas características dessas companheiras que assumem. Isso me deixa muito contente e com uma expectativa muito positiva. O governo Dilma já começa com um diferencial. Embora não tenha chegado a 50% de participação feminina, um dia chegaremos. Talvez não tenha chegado a 30%, como pretendia a presidenta, mas temos um número maior e com a característica delas. Elas já vêm com muita experiência, com trajetória e uma presença forte na luta pela cidadania, pelos direitos de gênero, pelos direitos humanos. São lideranças políticas. Isso vai fazer diferença no governo.

Quais serão os principais desafios da presidenta Dilma neste início de governo?
Será mobilizar a sociedade civil para estabelecer um diálogo permanente com um dos atores que devem influir nas decisões de governo. Além do Legislativo e do Executivo, é fundamental que haja uma interlocução do governo com a sociedade civil organizada.

Faltou essa interlocução durante os oito anos do governo Lula?
Faltou. O método de gestão que o presidente adotou estava de acordo com o feitio de liderança dele e de seu carisma. Deu certo. Mas a democracia pressupõe um protagonismo da sociedade civil organizada para além das instituições políticas, como o Congresso e o Executivo. Isso aí pode ser uma grande contribuição que a nova presidenta dará à democracia no país, estimulando a democracia direta e participativa.

Conquistar o apoio dos movimentos sociais para pressionar o Congresso seria uma forma de compensar o carisma que falta a ela e sobrava em Lula?
Sim. Não só por isso, mas para não ficar tão dependente do Congresso. A base de sustentação precisa ser preservada, é necessário ter uma relação propositiva com o Congresso. Mas uma dependência absoluta não é algo bom. Uma forma de mediar essa relação - já que a base é tão larga, tão heterogênea, tão pouco definida ideologicamente – e de compensar essa dependência tão grande é ter um terceiro ator interferindo nessa relação, que é a sociedade civil organizada. Pela experiência que tivemos nos oito anos de governo Lula, temos condição de avançar nessa direção.

O que vai mudar essa relação do Executivo com o Legislativo na prática?
É exatamente essa presença de um terceiro interlocutor, a sociedade civil organizada. Mas as determinações serão as mesmas. Dificilmente, a nova presidenta conseguirá não ficar tão dependente das injunções e das exigências das forças que estão aqui no Congresso. Mas o perfil dela pode alterar um pouco essa forma com que Lula lidava, que era baseada no tipo de liderança e no carisma dele. A conjuntura política e o perfil de cada um interferem nessa relação. O fato de ser outra pessoa, com outro tipo de experiência, vai trazer dados diferentes. Se não forem inovadores, pelo menos diferentes serão.

Que erros cometidos nessa relação com o Congresso no governo Lula não podem ser repetidos por Dilma?
Essa relação do Executivo com o Congresso e os partidos teria de ser mais transparente. Tem de haver um investimento muito alto na reforma política. Esse quadro partidário está esgotado e muitos dos problemas nessa relação se devem ao esgotamento dos partidos políticos como propostas políticas. São legendas, umas mais antigas, outras menos, umas mais fortes e maiores, outras com menos tempo de experiência política, mas todas têm uma relação com o governo que não é boa. Os partidos perdem sua autonomia, sua identidade, seu projeto próprio. Uma democracia forte, plural, pressupõe partidos identificados ideológica e programaticamente, mesmo sendo base do governo. Partido da base do governo deve ter seu próprio projeto, embora identificado com o projeto que está sendo exercitado no governo. Se abrir mão disso, não é partido, porque partido existe para disputar poder. Para isso, tem de ter projeto próprio mesmo com identidade em relação a outros. Senão, daqui a quatro ou oito anos, esse partido continuará na mesma condição de ser uma força auxiliar, e não principal, a disputar o poder do país.

A senhora espera também mudança de comportamento por parte da oposição?
Vai depender da forma com que a presidenta Dilma vai estabelecer essa relação. Porque há uma prática de oito anos - e até anterior, do outro governo – que faz o Congresso se ressentir de preservar, afirmar e exercitar sua autonomia como um dos poderes da República. Hoje fica submetido a medidas provisórias em número exagerado. O Judiciário substitui muitas prerrogativas do Legislativo até em matérias de exclusiva competência do Congresso, como as questões ligadas a partidos políticos e eleições. O Congresso está se ressentindo de uma relação mais soberana, que preserve a harmonia entre os poderes, que permita a ele ser um poder identificado como tal, exercitando sua soberania. Ele precisa se afirmar e ocupar o espaço dele no Estado democrático de direito numa república verdadeiramente democrática. Há muito que avançar da parte do Legislativo. Invisto nisso como deputada, sobretudo, numa reforma política que seja fruto de um pacto da sociedade com as instituições políticas para aperfeiçoar o processo democrático no país.

http://www.congressoemfoco.com.br/noticia.asp?cod_canal=12&cod_...

De Erundina para Dilma: “Não se intimide” (entrevista) - Portal Luis Nassif

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

“Jornalismo popular” ou violação de direitos?

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“o que estes senhores chamam de ‘jornalismo popular’ está pautado na mais explícita banalização da violência e violação de direitos das mulheres, homossexuais e outros grupo historicamente vítimas de preconceito neste país” - Raquel Melo, em seu blog, via Alê Peixoto

Viomundo – O que você não vê na mídia 

Raquel Melo: “Jornalismo popular” ou violação de direitos?

da Raquel Melo, em seu blog, via Alê Peixoto

Boa tarde,

Peço à ouvidoria da Secretaria de Direitos Humanos que esta mensagem chegue ao senhor Gustavo Bernardes da Coordenadoria Nacional de Promoção dos Direitos LGBT.

O jornal Meia Hora, que pertence ao grupo EJESA (Empresa Jornalística Econômico S.A.), é conhecido pela população carioca, e mais recentemente pela paulistana, pelo que seus editores chamam de ‘jornalismo popular’ para retratar situações do cotidiano no país.

O grupo EJESA, segundo o próprio site da empresa, detém três jornais impressos e online: O Dia, Meia Hora e Marca Campeão que juntos chegam a mais de 3,5 milhões de leitores.

Em uma rápida busca no site do jornal considerado mais popular do grupo, o Meia Hora, é possível ter acesso às capas de algumas edições publicadas. Fato é que o que estes senhores chamam de ‘jornalismo popular’ está pautado na mais explícita banalização da violência e violação de direitos das mulheres, homossexuais e outros grupo historicamente vítimas de preconceito neste país.

Em um governo que começa seu mandato afirmando o compromisso de combater a homofobia e outras formas de preconceitos é de extrema urgência que se criem mecanismos que impeçam empresas de comunicação com ou sem concessão pública de perpetuarem a discriminação e incitarem a violência, principalmente contra os homossexuais.

Que criem e garantam nosso direito de resposta às publicações e veiculações absurdas que ferem nossa Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Abaixo, as capas do jornal Meia Hora publicadas pelo grupo EJESA somente em janeiro de 2011. Reparem nas palavras usadas pelos jornalistas para se referirem às mulheres e aos homossexuais: bibas, gostosa, traveco, piriguete. Imaginem tudo que foi publicado em 2010.

Terça, 18 de janeiro de 2011

http://one.meiahora.com/public/uploads/printcovers/18012011.pdf

Sábado, 15 de janeiro de 2011

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Sexta, 14 de janeiro de 2011

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Segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

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Quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

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Terça-feira, 4 de janeiro de 2011

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Professor, posso falar?

Do Blog "Brasil que eu quero - Daily News"

Por Miguel do Rosário - Do Gonzum - 21.12.2010    

Buscar a conciliação me parece o mais sensato a fazer agora. Essa brigalhada na web gerou muita energia negativa e desagregou a blogosfera progressista. É ingenuidade, porém, querer encerrarmos a polêmica através de um silêncio forçado, através de uma paz artificial. Os assuntos precisam ser debatidos até o fim. Em seu último post sobre o tema, o Idelber adotou posições das quais continuo discordando, e faço-o aqui com a maior educação e respeito, para expandir o debate e tentar, como se diz, fazer desse limão uma limonada.

O texto de Idelber, com toda sua pompa, faz uma série de generalizações rasas. Ele usa a reação de alguns comentaristas de seu blog como exemplo, além das observações de botequim de uma amiga, para fazer um julgamento absolutamente empírico sobre todos os homens do planeta Terra, acusando-os por sua vez de emitir opiniões empíricas e rasas sobre o feminismo. Ou seja, ele pode fazer um julgamento empírico, os “homens” não.

Confiram trecho:

(…) quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

A que homens se refere? A que opiniões? Por que opiniões vem entre aspas? Quando eu emito uma opinião sobre um assunto político eu tenho que obrigatoriamente me embasar sobre a bibliografia citada pelo interlocutor? Idelber parece confundir debate político (e feminismo é uma questão política, e das mais populares, não há sentido compará-la ao estudo da “hermenêutica” ou “fenomelogia”) com a formulação de uma tese acadêmica.

Essa postura (equivocada, a meu ver) será aprofundada nos parágrafos seguintes:

Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quem os homens pensam que são para ousar ter opinião (que vem novamente entre aspas; eu queria saber por que vem entre aspas, que têm uma função neste caso notoriamente pejorativa)? Sobre checar as estatísticas de violência doméstica, etc, ou ouvir uma feminista, Idelber novamente generaliza: ele cria um personagem caricatural, que não tem noção de nada, que nunca leu uma notícia sobre violência doméstica nem sobre diferença salarial, que nunca conversou ou ouviu uma feminista, e pespega essa imagem em todo homem que tem opinião (com aspas). Daí ele nos brinda com uma condescendência paternal, abordando novamente a não leitura do cânone feminista. Ora, me desculpe, mas para mim isso é pedantismo puro e descarado, na pior acepção do termo, pois um intelectual que se preza deveria nos trazer ao menos uma síntese, ou resumo, de alguns conceitos contidos naqueles livros. É assim que se produz cultura. É assim que se instiga as pessoas a procurarem os livros mencionados.

Não acho democrático que, diante de um tema político (e popular, repito, não posso conceber que se compare o tema “feminismo” com o estudo da fenomelogia alemã do século XIX), se exija do interlocutor a leitura de uma determinada obra como pré-condição para participar do debate. Se a pessoa acha essa obra tão fundamental, que exponha, então, os seus principais conceitos.

A atitude de Idelber nada mais é do que uma “carteirada” acadêmica. Ele cria um interlocutor imaginário, uma figura caricata, que ele se empenha em detonar. Ao não pessoalizar o ataque, contudo, ele parece estar dando socos intelectuais num boneco de ar, que não pode responder, e ao mesmo tempo posa de campeão de boxe.

Que eu saiba, existem zilhões de livros no mundo e acho impossível alguém lê-los todos. Pior, lembrar deles. Shopenhauer tinha uma frase engraçada sobre isso: dizia que pretender guardar tudo o que se lê na memória corresponderia a segurar no estômago tudo que se comeu ao longo da vida. Ou seja, o sujeito pode ter lido Simone de Beauvoir há vinte anos e hoje não se lembrar de nada, de maneira que para participar do debate sobre feminismo, teria que não apenas ler os livros mencionados, como relê-los, anotá-los, estudá-los detidamente para depois fazer a prova no blog do Idelber.

Essas exigências todas, a meu ver, transformariam o debate feminista numa conversa incrivelmente restrita, uma panelinha acadêmica, mesmo entre as mulheres. Trata-se de uma visão antidemocrática, elitista, e também profundamente antifilosófica, pois inibe o diálogo e a participação de quem não seria “iniciado” nas teorias do “feminismo”.

Mesmo sem leitura nenhuma no assunto, creio que qualquer pessoa tem potencial para dar uma contribuição criativa, a partir de sua experiência pessoal. Você não percebe, Idelber, que seus critérios produziriam uma hierarquia absurda, inclusive e sobretudo entre as próprias mulheres? Haveria uma categoria de sábios ou sábias que se arvorariam donos da verdade na questão do “feminismo”, por terem lido esses livros. Mas quem garante que esses livros não contém uma série de conceitos equivocados? Quer dizer, entendo que existe um feminismo enquanto tese acadêmica ou ciência, mas existe sobretudo, a experiência viva de todo ser humano diante da condição da mulher no mundo. E o homem deve ser estimulado a falar, a dar uma opinião franca e espontânea sobre o tema, e não ser censurado e intimidado como se pretende em seu blog.

Ele continua assim:

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros “corretivos” de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Idelber faz insinuações, por mais melífluas que sejam, ao debate do post anterior, onde eu figurei como um dos debatedores. Ele continua batendo no boneco de ar, mas na sua imaginação (e na dos leitores), os rostos ali projetados são de pessoas conhecidas, que não são dignas, porém, de serem nomeadas. Não é da gente que ele está falando. O que ele chama de chororô é a reclamação que fizemos de que nossas intervenções não foram respondidas com argumentos, e sim com respostas evasivas, esnobes, além de criativas variações em torno da palavra “ignorante”. Além de não podemos falar de feminismo sem antes ler os livros da estante do Idelber, temos que aguentar calados que nos esculachem. Noto ainda uma visão “machista” do homem, pois ele dá a entender que não podemos ter sensibilidade, não podemos nos sentir ofendidos, não podemos chorar.

Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando ‘divido’ o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

No meu egocentrismo paranóico, senti aquele “rosário” como mais alfinetada em minha pessoa. Agora não apenas sou machista, como também sexista. Maravilha. E usa a tática recorrente de outros comentaristas do post anterior, e sobre a qual protestamos reiteradamente. Só faltou botar aspas, como fez a outra, para nosso pensamento. Ninguém falou isso que Idelber disse. Ele novamente está batendo num joão-bobo. Eu, por exemplo, dei o exemplo de minha mulher não para vir ao debate com o argumento infantil: “tá vendo? minha mulher concorda comigo”, mas porque minha opinião vinha sendo sistematicamente discriminada pelo fato d’eu ser homem, a ponto de sequer ter o direito de ser chamado de “homem”. A interlocutora (para ser mais preciso, a senhora Lola), passou a nos chamar simplesmente de “machos”, o que, já disse, considerei ofensivo naquele contexto. Nunca me passaria pela cabeça chamá-la de “fêmea”. O que eu quis dizer, e creio que expliquei direitinho, mas se recusaram a entender, é que minha mulher é, na minha opinião, uma feminista. Ela faz uma revista voltada (ao menos nos seus primeiros números) para o público feminino, uma revista que luta abertamente em prol da autoestima e da valorização da mulher. Mas ela também luta contra esse feminismo pedante, acadêmico e agressivo, que, na opinião dela, apenas atrapalha a vida pessoal da mulher e gera estereótipos negativos e contraproducentes para o feminismo.

Quando eu falo em agressividade, não é porque peço um feminismo “dócil”. Não peço nada. Apenas contesto uma maneira de debate fundamentada em acusações de que o outro é ignorante, sem que o interlocutor se disponha a formular sequer UM conceito criativo. Aliás, ainda tem isso, essa falta de criatividade, esse pendurar-se em pensamentos alheios, em conceitos criados nos Estados Unidos há trinta anos, sem atualizá-los à luz dos novos tempos e da realidade brasileira.

Continuando, Idelber aprofunda a generalização e transforma um debate que nem é mais tanto sobre o feminismo, mas que se torna quase um debate sobre a liberdade de expressão, numa crítica abstrata e superficial aos “blogueiros progressistas”.

Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

Idelber resolveu implicar com o termo “progressista”, uma preocupação que semelha a busca frenética de pêlos em ovo. Ora, e “esquerda”, não é um termo etimologicamente muito mais estranho? Esquerda também é um termo “resolvido”? Até entendo que ele queira criticar o termo “progressista”, mas a maneira como ele o faz, no contexto da luta política que vivemos, e da posição que ele, Idelber, tem assumido, é desagregadora e desleal. Ora, o termo “progressista” é um tema em aberto. O importante não é tanto o nome do personagem, mas a sua ação, o que ele faz, o que ele pensa. Sobre esse “visivelmente masculinista”, é uma acusação ou qualificação puramente pernóstica. Mais que isso, é enfadonho, como se alguém quisesse desqualificar a revolução francesa por ter sido liderada por homens. É um feminismo barato. Esse sim, a meu ver, é o pior tipo de sexismo. Idelber insinua, por acaso, que os blogueiros progressistas “vetam” deliberadamente a participação de mulheres no movimento? O Encontro Nacional trouxe um enorme número de mulheres. Claro, os blogueiros “grandes” são homens, e certamente pode-se encontrar em toda parte alguma espécie de machismo. Mas é um processo. As mulheres estão ganhando participação e esse tipo de divisionismo sexual, essa tentativa de criar uma guerra entre os sexos, me parece profundamente antipático.

Aí o post sai do estágio do pedantismo e envereda para o da arrogância pura:

Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

Ã? Masculinismo progressista? O que é isso? O que o caracteriza é não entender a lição de “Ana”? Para sermos alguém na vida e nos libertamos de nossos terríveis preconceitos machistas, bastar-nos-á então ler os textos gentilmente indicados por Idelber? No caso, nem é um texto sobre feminismo, é sobre racismo. Daqui a pouco, Idelber vai dizer que os “blogueiros progressistas” são racistas… Aliás, inúmeros comentaristas nessa polêmica insinuaram isso, ao mencionar blogueiros homens-brancos, sem sequer se preocupar em saber que boa parte de nós, blogueiros progressistas, somos pardos e negros. Idelber menciona também o “umbiguismo”, dando vazão ao que eu considero uma discriminação contra uma maneira de escrever, que eu gosto muito, que é de fundamentar conceitos a partir do que conhecemos de nós mesmos. Eu particularmente acho mais honesto e científico basear-se na minha experiência pessoal, no meu umbigo, do que, num debate sobre liberdade de expessão, discorrer sobre as mulheres negras de Uganda. Sobre a análise freudiana, parece-me um ótimo conselho, mas para o próprio autor.

O texto prossegue com xaropadas sobre sexismo, acusando os homens – reles homens! – de cometer a petulância de organizar um movimento na blogosfera! A linguagem de Idelber assusta. Ele conclui com uma espécie de carteirada final, ao dizer que: “Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria entitulada “sistemas duais”, que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes).”

Bem, eu imagino que essa polêmica aí das feministas materialistas britânicas deve ser algo tremendamente emocionante, mas neste caso, eu prefiro continuar sendo um ignorante.

Por fim, a pérola final do grande Idelber:

Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.

Bem, essa aí é fácil responder: basta mandar a bola de volta para quem chutou. Escutar pessoas, homens ou não, que não são expertise em feminismo materialista britânico dual, mas que tem outras experiências de vida interessantes, também seria saudável para Idelber e companhia.

PS: Não quis ofender ninguém ao usar os termos “pedante” ou “arrogante”, mas um debate fica insuportavelmente chato se a gente não puder ter a liberdade de cutucar o interlocutor.

"Brasil que eu quero - Daily News": Professor, posso falar?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Eduardo Guimarães: A quem interessa desagregar a blogosfera? |

Viomundo – O que você não vê na mídia 

Eduardo Guimarães: A quem interessa desagregar a blogosfera?

por Eduardo Guimarães, no blog da Cidadania

Luis Nassif teve uma atitude corajosa e humilde ao assumir um erro que fatalmente cometeu ao transformar em post o comentário de um leitor seu que inseriu na blogosfera um termo que, até então, só os mais versados na luta das mulheres por igualdade conheciam: “feminazi”. A partir desse episódio, produziu-se uma trama cada vez mais intrigante.

Nassif errou, demorou a corrigir o erro e, assim, teve que assumir e deixar para o público o julgamento sobre se deve ou não ser desculpado, já que não matou ninguém nem pregou opressão das mulheres, ainda que tenha dado espaço a uma caricatura de um movimento necessário como o dessas que tanto sofrem ainda em pleno século XXI.

Mas o que me preocupa não é isso. O que me levanta suspeita é a quem interessaria prolongar uma discussão tão tremendamente estéril que, como primeira conseqüência, já causou uma baixa de expressão em um movimento que se autodenominou “blogosfera progressista” por decisão de mais de 300 blogueiros de todas as partes do país que se reuniram em agosto em São Paulo e que votaram – eu disse que VOTARAM – por se autodenominarem “progressistas”.

Nassif não quer mais nada com o peixe. E não é o único blogueiro de projeção nacional a não querer. Não cito quem são os outros porque não lhes tenho autorização, mas garanto que são aqueles que atraíram para a blogosfera o público que ela auferiu por serem pessoas de projeção pública, jornalistas de renome que tiveram boa intenção e se ferraram por isso.

No começo, pensei que tudo fosse só produto de quatro tipos de pessoas que declararam guerra não só ao Nassif, mas à comissão organizadora do 1º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas. A saber:

1 – Os que esperavam lucrar mais com o Encontro inserindo-se em um grupo fechado que acreditavam existir, mas que jamais existiu – a comissão organizadora do encontro dos blogueiros progressistas foi constituída episodicamente e, ao fim do evento, decidiu-se que nos próximos seria renovada.

2 – Militantes e não militantes de boa-fé e que ficaram legitimamente contrariados com o erro claramente involuntário cometido por Nassif – estes, ativeram-se a criticar Nassif e só a ele e de forma educada.

3 – Desafetos antigos do Nassif que aproveitaram seu tropeço para acertarem velhas contas consigo, em uma atitude covarde e desleal, e que chegam ao ponto de escrever textos imensos culpando-o pelo sofrimento de todas as mulheres só porque publicou o malfadado post.

4 – Os contrariados com a escolha dos blogueiros que entrevistaram Lula, que não se conformaram por não estarem entre os escolhidos e que não entenderam como nasceu esse encontro e, por isso, não entenderam tal escolha.

Vale explicar uma coisa: a primeira pessoa a lançar uma proposta informal de uma entrevista de blogueiros com Lula foi Eduardo Guimarães há mais ou menos uns dois anos.

Acontece que descobri ter um leitor assíduo que trabalhava no Palácio do Planalto e que um dia me procurou para me convidar a tomarmos um café e batermos papo. Fui ter com ele e, durante o papo, abordei possibilidade que já tinha comentado com amigos como Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha, Conceição Lemes, Renato Rovai e Altamiro Borges, entre outros, de o presidente conceder uma entrevista à blogosfera.

Como de costume, comecei a “agitar”. Falei com mais pessoas, tais como, por exemplo, alguém que era sempre bem recomendado inclusive pelo Nassif, um acadêmico e blogueiro de Minas chamado Idelber Avelar.

Convidei todos para uma reunião em meu escritório, da qual todos disseram que participariam. Entretanto, só compareceram o Altamiro e o Rodrigo porque os outros tiveram problemas para comparecer.

Meu leitor que trabalhava no governo me disse que deveria encaminhar uma proposta à Secom, pois achava que ela poderia frutificar devido à vontade do presidente Lula de incentivar o surgimento e a consolidação das mídias alternativas.

Contudo, como não tinha experiência de manter interlocução com governos, fui deixando o assunto pra lá até que acabei não encaminhando nada à Secom.

Lá pra junho deste ano, se bem me lembro, o Miro (Altamiro Borges) convocou uma reunião no restaurante paulistano Sujinho para discutirmos idéia sobre a qual o Azenha sempre falava, de os blogueiros com maior notoriedade se empenharem para dar espaço aos blogueiros ainda pouco conhecidos que estavam surgindo e que tinham ideologias e posições políticas próximas, ainda que desiguais.

Durante aquele jantar, formou-se o embrião da comissão organizadora do encontro de blogueiros que o Azenha pretendia que fosse igual ao que contou com o apoio de Barack Obama durante a última campanha eleitoral à presidência dos EUA.

Mas como fazer para realizar esse encontro? Dificilmente muitos blogueiros de outros Estados poderiam arcar com despesas de avião, hotel, refeições em restaurantes etc. Havia que conseguir recursos, organizar a relação das pessoas que viriam etc.

Azenha e Paulo Henrique Amorim, que num segundo momento juntou-se a nós, não hesitaram em tirar do bolso três mil reais cada um. Azenha, particularmente, sempre tentou dar notoriedade aos blogueiros que estavam chegando – primeiro, através do Sivuca e, depois, através de uma seção que criou em seu blog que chamou de Palanque, se bem me lembro.

Mas era pouco dinheiro o que doaram Azenha e PH e os outros não tínhamos condição de imitá-los. Então, eu, a Conceição Lemes, o Altamiro Borges e a Conceição Oliveira saímos a campo em busca de recursos. Particularmente, fui um dos que mais doações de 3 mil reais conseguiu.

Fomos a empresas, a sindicatos e, a duras penas, juntamos recursos para o evento.

Nada disso teria sido possível sem o apoio do Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé, presidido pelo Miro, pois a estrutura que se montou para dar transporte, hospedagem e alimentação a centenas de pessoas, só tendo uma organização como essa por trás.

Ao fim do encontro, em jantar de avaliação da obra que cometêramos, o Rovai comunicou que levara adiante a idéia que abandonei e que recebera um parecer positivo da Secom. Para dar ainda mais força à associação de blogueiros progressistas que surgira, decidimos que assim nos apresentaríamos durante a entrevista.

Como o encontro de blogueiros nasceu em São Paulo e o governo queria representantes de outros Estados, convidamos o Cloaca, o Túlio Vianna, o Altino Machado, o Leandro Fortes, o Pierre Lucena e o José Augusto (Amigos do Presidente Lula). Azenha, PH e Nassif abriram mão de participar em favor deles e criamos mais “vagas” do que pretendíamos, para dez blogueiros.

Eu mesmo não pretendia participar. Tinha que viajar para a Argentina a trabalho porque devido à campanha eleitoral deixei meu ganha-pão de lado e as empresas que represento estavam me cobrando queda nas vendas. Além do que, alguma coisa me dizia, desde 2 anos antes, que haveria uma comoção entre os que ficassem de fora.

O Rovai e uma pessoa que não posso nominar – e que foi decisiva para eu rever minha decisão de não comparecer – pediram-me encarecidamente que desse um jeito de participar da entrevista. E até por eu ter vários leitores no governo, incluindo o ministro Franklin Martins.

Enfim, contei essa história para que todos entendam como surgiu esse grupo que se autodenominou “progressista” e que teve tal denominação aprovada por expressiva maioria dos 300 blogueiros do Encontro de agosto, e como logramos extrair do Palácio do Planalto a entrevista que o presidente Lula nos concedeu.

Contudo, há uma figura que me levantou suspeita nesse espantoso caso “feminazi”. O tal de Idelber Avelar, com quem só falei uma vez até hoje. Ele aproveitou para acertar alguma conta antiga com Nassif e ainda envolveu gente que não publicou post nenhum divulgando o termo doentio, os blogueiros progressistas.

Qual o interesse desse sujeito? Quem ele pensa que é para apontar o dedo para gente que nem conhece e fazer acusações sobre nada? E o que é pior: de forma covarde e esquizofrênica, sem dar nomes aos bois e baseado apenas em suas idiossincrasias. A quem interessa, pois, desagregar uma blogosfera progressista da qual até o governo Lula reconheceu a relevância?

PS meu, Eduardo Guimarães: o Nassif só cometeu um erro imperdoável, de não ter citado a jornalista Conceição Lemes, que o PH bem chamou de “a alma” do encontro dos blogueiros e que já produziu as melhores reportagens da blogosfera brasileira no Viomundo. Mas devido ao assédio que Nassif vem sofrendo, é compreensível.

Eduardo Guimarães: A quem interessa desagregar a blogosfera? | Viomundo - O que você não vê na mídia

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher

Viomundo - O que você não vê na mídia
25 de novembro de 2010 às 1:25

Por Conceição Oliveira do Blog Maria Frô, twitter: @maria_fro

Hoje é o dia Internacional da Não Violência contra a Mulher.

Há cinco dias blogueiras, blogueiros, twitteiras e twitteiros mudaram seus avatares e vêm postam temáticas relacionadas à campanha. Ela prossegue até o final do mês em diferentes ações no mundo offline. Uma das primeiras ações na blogosfera e redes sociais foi da Niara do Pimenta com limão. No twitter acompanhe a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher
No Observatório de Gênero alguns dados das ações sobre a campanha Ponto Final. Aqui, o site oficial da Campanha, que explica a sua história e sua importância.

Abaixo um dos vídeos da campanha.

De minha parte convido os leitores a lerem ou relerem Sexismo emburrece e mata, um post longo que publiquei aqui no blog, em julho, e que ainda acho que tem elementos para refletimos sobre a importância do dia de hoje.

Abaixo dois vídeos da campanha Ponto Final na violência contra mulheres e meninas:

Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher | Viomundo - O que você não vê na mídia

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O machismo como pano de fundo

Antes de iniciar a campanha recebi um e-mail com um vídeo em que o Carioca do Pânico imitava a “Dilma do Chefe”. Com voz bem masculina e tom agressivo deixava a mensagem clara de que o poder é coisa para homem. Ou que mulheres na condição de poder não devem ser “mulheres”. O espaço da mulher na televisão que predomina ainda é o da Mulher Samambaia, personagem também criada no Pânico. A mulher que fica no canto para enfeitar e agradar aos olhos.
Na última semana do primeiro turno, eu não percebia, e sequer as pesquisas, que havia um movimento de esgoto trabalhando com preconceitos e ideais moralizantes e fundamentalistas, pelos porões de igrejas, e-mails e ruas. Naquele momento não dei importância, mas observei as falas contadas por colegas de trabalho de um movimento por Marina. A imagem de mulher evangélica, comportada e voz fina, obstante de sua bela história de militância e coragem, caía bem ao contrapor uma “guerrilheira, terrorista, abortista e lésbica”,como circulava pela central de boatos. Caía melhor ainda aos interesses de provocar um 2º turno para Serra. De candidata verde passou a laranja. De onda verde passou a marrom.

O machismo sempre formou o pano de fundo dessas eleições, ainda que as mulheres tenham tido mais votos que os homens. O machismo no país não é fato assumido, assim como o racismo ou a homofobia, tema que agora retrocedeu à bandeira de questão a ser combatida por religiosos (leia Em convenção da Assembleia de Deus, Serra promete vetar Lei da homofobia). O preconceito contra a mulher é ignorado por ser tratado como natural. Pensávamos estar superada a época das grandes frases de Maluf quando dizia que “a professorinha não era mal paga, mas mal casada”, ou quando se indignava com o estuprador, pois se tem desejo sexual, “estupra, mas não mata”. Pois o museu das grandes anedotas da história política, abre uma ala próxima a Maluf só para o novo acervo trazido por Serra.

Como disse Paulo Henrique Amorim que atribui a Serra o título de “jênio”, o candidato “inaugura a sedução eleitoral” com a frase “Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45″ (leia mais). Frase que virou chacota do jornal argentino Clarin: Serra lanza una durísima ofensiva contra Dilma. A ironia é que enquanto a imprensa argentina critica o desespero do ato machista tucano, a imprensa brasileira, mais especificamente a Globo, reduz a Presidente argentina ao papel de viúva, deixando dúvidas quanto a sua capacidade de governar sem o marido, falecido esta semana. Rodrigo Viana, do blog Escrevinhador faz as devidas críticas a esse “machismo tão fora de época que a gente fica até com preguiça de discutir” no artigo Dilma, Cristina e a “falta de um homem”.
Disse ainda o blogueiro:
Cristina não é “apenas” a “esposa” de Kirchner. Isabelita era “apenas” esposa de Peron nos anos 70. Os tempos eram outros. E deu no que deu – Isabelita (era a vice do marido e, com a morte de Perón, assumiu o poder) foi uma presidenta fraca, que abriu caminho pra ditadura.
Cristina, não! Ela militou ao lado de Nestor, contra a ditadura. Tem vida própria, luz própria. O marido tinha liderança e isso ninguém contesta, mas querer reduzir Cristina ao papel de “esposa”, ou agora “viúva”, é quase inacreditável.
Por que falo disso agora? Porque vários leitores relatam que, no telemarketing do mal aqui no Brasil, há um novo telefonema na praça. Uma voz – feminina - pergunta ao cidadão incauto: ”será que a Dilma dá conta, sem o Lula?”
O machismo é o mesmo – contra Dilma e Cristina. E eu me pergunto: em que século vivem os marqueteiros do mal e os editores do “Jornal da Globo”?
Dilma não precisou segurar na mão do Lula quando – aos 17 ou 18 anos – foi pra clandestinidade lutar contra a ditadura. Dilma não precisou do apoio de Lula quando esteve presa, nem quando resistiu aos toturadores.
Dilma tem trajetória própria. Os tucanos, por menosprezar essa verdade, acreditaram na balela vendida por mervais e jabores: “ela não resiste à campanha sem o Lula”. He, he. Machista, normalmente, leva um susto quando vê que a mulher não “precisa” de homem
.
Para quem não conhece o blogueiro, Rodrigo Viana não é um maniqueísta. Trata de marqueteiros do mal como alusão à campanha que prega o maniqueísmo: Serra é do bem. Como ironizou o ator Zé de Abreu, que conhece Serra da UNE, quando o então Presidente abandonou a entidade no momento em que mais dele precisava, quem é do bem não precisa ficar dizendo e cantando isso (assista).  

Também na contrapartida das evocações machistas, a Professora Marilena Chauí (veja no Youtube), no ato da USP, acontecido nesta semana, citou as mulheres que são responsáveis pelo recebimento e uso do dinheiro do Bolsa Família e que passaram a ocupar na sociedade e estrutura local um novo lugar. Isto por si já toma um efeito sobre as mulheres e sobre a estrutura familiar em um país machista e sexista em todas as classes sociais. A filósofa percebe que isso promove uma mudança no nível dos costumes, da relação familiar e na situação das mulheres.

Essa mudança, no entanto, terá muitas barreiras a superar. Há muitos lugares a serem ocupados pelas mulheres. Dentre eles, a Presidência. Mas isso não bastaria. Tratará a mídia, então, de tentar derrubar essa mulher, agora, imaginam eles, mais fraca sem seu homem forte. Recorrendo Rodrigo Viana: como bons machistas vão tomar um susto.

O machismo como pano de fundo

Antes de iniciar a campanha recebi um e-mail com um vídeo em que o Carioca do Pânico imitava a “Dilma do Chefe”. Com voz bem masculina e tom agressivo deixava a mensagem clara de que o poder é coisa para homem. Ou que mulheres na condição de poder não devem ser “mulheres”. O espaço da mulher na televisão que predomina ainda é o da Mulher Samambaia, personagem também criada no Pânico. A mulher que fica no canto para enfeitar e agradar aos olhos.
Na última semana do primeiro turno, eu não percebia, e sequer as pesquisas, que havia um movimento de esgoto trabalhando com preconceitos e ideais moralizantes e fundamentalistas, pelos porões de igrejas, e-mails e ruas. Naquele momento não dei importância, mas observei as falas contadas por colegas de trabalho de um movimento por Marina. A imagem de mulher evangélica, comportada e voz fina, obstante de sua bela história de militância e coragem, caía bem ao contrapor uma “guerrilheira, terrorista, abortista e lésbica”,como circulava pela central de boatos. Caía melhor ainda aos interesses de provocar um 2º turno para Serra. De candidata verde passou a laranja. De onda verde passou a marrom.

O machismo sempre formou o pano de fundo dessas eleições, ainda que as mulheres tenham tido mais votos que os homens. O machismo no país não é fato assumido, assim como o racismo ou a homofobia, tema que agora retrocedeu à bandeira de questão a ser combatida por religiosos (leia Em convenção da Assembleia de Deus, Serra promete vetar Lei da homofobia). O preconceito contra a mulher é ignorado por ser tratado como natural. Pensávamos estar superada a época das grandes frases de Maluf quando dizia que “a professorinha não era mal paga, mas mal casada”, ou quando se indignava com o estuprador, pois se tem desejo sexual, “estupra, mas não mata”. Pois o museu das grandes anedotas da história política, abre uma ala próxima a Maluf só para o novo acervo trazido por Serra.

Como disse Paulo Henrique Amorim que atribui a Serra o título de “jênio”, o candidato “inaugura a sedução eleitoral” com a frase “Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45″ (leia mais). Frase que virou chacota do jornal argentino Clarin: Serra lanza una durísima ofensiva contra Dilma. A ironia é que enquanto a imprensa argentina critica o desespero do ato machista tucano, a imprensa brasileira, mais especificamente a Globo, reduz a Presidente argentina ao papel de viúva, deixando dúvidas quanto a sua capacidade de governar sem o marido, falecido esta semana. Rodrigo Viana, do blog Escrevinhador faz as devidas críticas a esse “machismo tão fora de época que a gente fica até com preguiça de discutir” no artigo Dilma, Cristina e a “falta de um homem”.
Disse ainda o blogueiro:
Cristina não é “apenas” a “esposa” de Kirchner. Isabelita era “apenas” esposa de Peron nos anos 70. Os tempos eram outros. E deu no que deu – Isabelita (era a vice do marido e, com a morte de Perón, assumiu o poder) foi uma presidenta fraca, que abriu caminho pra ditadura.
Cristina, não! Ela militou ao lado de Nestor, contra a ditadura. Tem vida própria, luz própria. O marido tinha liderança e isso ninguém contesta, mas querer reduzir Cristina ao papel de “esposa”, ou agora “viúva”, é quase inacreditável.
Por que falo disso agora? Porque vários leitores relatam que, no telemarketing do mal aqui no Brasil, há um novo telefonema na praça. Uma voz – feminina - pergunta ao cidadão incauto: ”será que a Dilma dá conta, sem o Lula?”
O machismo é o mesmo – contra Dilma e Cristina. E eu me pergunto: em que século vivem os marqueteiros do mal e os editores do “Jornal da Globo”?
Dilma não precisou segurar na mão do Lula quando – aos 17 ou 18 anos – foi pra clandestinidade lutar contra a ditadura. Dilma não precisou do apoio de Lula quando esteve presa, nem quando resistiu aos toturadores.
Dilma tem trajetória própria. Os tucanos, por menosprezar essa verdade, acreditaram na balela vendida por mervais e jabores: “ela não resiste à campanha sem o Lula”. He, he. Machista, normalmente, leva um susto quando vê que a mulher não “precisa” de homem
.
Para quem não conhece o blogueiro, Rodrigo Viana não é um maniqueísta. Trata de marqueteiros do mal como alusão à campanha que prega o maniqueísmo: Serra é do bem. Como ironizou o ator Zé de Abreu, que conhece Serra da UNE, quando o então Presidente abandonou a entidade no momento em que mais dele precisava, quem é do bem não precisa ficar dizendo e cantando isso (assista).  

Também na contrapartida das evocações machistas, a Professora Marilena Chauí (veja no Youtube), no ato da USP, acontecido nesta semana, citou as mulheres que são responsáveis pelo recebimento e uso do dinheiro do Bolsa Família e que passaram a ocupar na sociedade e estrutura local um novo lugar. Isto por si já toma um efeito sobre as mulheres e sobre a estrutura familiar em um país machista e sexista em todas as classes sociais. A filósofa percebe que isso promove uma mudança no nível dos costumes, da relação familiar e na situação das mulheres.

Essa mudança, no entanto, terá muitas barreiras a superar. Há muitos lugares a serem ocupados pelas mulheres. Dentre eles, a Presidência. Mas isso não bastaria. Tratará a mídia, então, de tentar derrubar essa mulher, agora, imaginam eles, mais fraca sem seu homem forte. Recorrendo Rodrigo Viana: como bons machistas vão tomar um susto.